Mulher-maravilha (Lívia Furtado)
A gravidez na adolescência é um fenômeno de repercussões preocupantes e ocorrência crescente. A maior parte dos casos deriva da chamada “cultura de maternagem”, comum nas periferias urbanas, como nas favelas cariocas; para que esse quadro de alarmante crescimento seja revertido, é preciso agir diretamente nos pilares dessa realidade: as mulheres.
O primeiro aspecto a ser analisado é o fator “em relação a quê.” A gravidez não é precoce em relação ao corpo das garotas – a erotização cultural pela qual a sociedade vem passando reflete-se na biologia, tendo, por exemplo, a menarca de 52% das brasileiras ocorrido entre os 11 e 12 anos destas, segundo dados de 2003 do Ministério da Saúde Brasileiro. Ela é, na verdade, precoce em relação à civilização.
“Prisioneira do corpo, a alma vive em guerra contra o carcereiro,” escreveu Carlos Drummond de Andrade. Em locais como as favelas brasileiras, a luta entre os instintos e as regras sociais, repressivas – o chamado “mal na civilização” de Freud – é vencida, primariamente, pelos instintos. Como conseqüência da carência de mecanismos legais de controle, não há ali a civilidade à qual estão acostumadas as classes média e alta. Nas comunidades periféricas, há o predomínio de uma sociedade patriarcal. A mulher volta a ser confinada ao mundo doméstico, mesmo quando trabalha fora, pois sua obrigação principal é cuidar da família, e é submetida ao homem. A comum não-existência do pai é outro fator agravante – envolvidos no tráfico, os homens morrem cedo, e as meninas órfãs sofrem da falta de limites, medo e respeito configurados na figura paterna.
Nessa cultura, retratada pelas diretoras Sandra Werneck e Gisele Camara no documentário “Meninas”, as garotas assumem, desde jovens, as responsabilidades do seu sexo: cuidar da casa e das crianças. Tornar-se mãe é um processo natural e lógico, enquadrados no ambiente em que elas vivem; é o único papel encontrado pelas mulheres para fazerem parte dessa sociedade. Luana, de 15 anos, uma das quatro adolescentes do filmes, declara ter planejado sua gravidez. Segundo ela, o desejo de ser mãe vinha do fato de ter cuidado de sua irmã mais nova, Talita, levando Luana a querer um bebê só para si.
A perpetuação dessa realidade gera o fenômeno visto nas estatísticas: em 2003, no Brasil, 20% dos nascimentos foram provenientes de gravidez adolescente, o que representa três vezes mais garotas grávidas com menos de 15 anos do que na década de 70. Embora dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) do mesmo ano apontem para um declínio do número de adolescentes entre 15 e 19 anos grávidas em relação às amostras de 1999, há ainda muito a ser feito. Investimentos em educação para a criação de melhores perspectivas de futuro a essas adolescentes são essenciais, pois são elas quem tem real poder de mudança. Também se precisa de melhorias na área de saúde. A ação do governo de disponibilizar preservativos no ambiente escolar é uma iniciativa que se tem mostrado eficiente, segundo pesquisas do Ministério da Saúde. Pais, alunos e professores aprovaram a medida, e os resultados apontaram uma maior conscientização e sensibilidade dos adolescentes beneficiados com o projeto.
Se nada é feito para mudar a formação dessas meninas, nada acontece. As mães adolescentes sofrem com o peso da maternidade, seus filhos são julgados culpados pela falta de perspectiva, a cultura se perpetua com a falta de esperança. Luanas, Edilenes, Joices e Evelins, crianças gerando crianças, futuros desperdiçados. Lutar pelas mulheres é tentar romper esse ciclo generalizado de desesperança e retrocesso: é mudar o mundo de dentro para fora.